Deep Dive #07 · Julho 2026

O Streaming e a Volta da Pirataria.

Em 2012 a Netflix chegou ao Brasil cobrando 3,2% do salário mínimo, tinha quase tudo num lugar só, e a pirataria caiu 57% nos anos seguintes. Em 2025 esse mesmo acesso está espalhado por 59 plataformas e custa 22% do salário, e os acessos piratas voltaram a subir. Fui aos números para entender se o streaming matou a pirataria ou apenas deu uma pausa nela.

22,4%do salário mínimo para ter o catálogo completo
59plataformas de streaming ativas no Brasil
216 Biacessos a sites piratas em 2024, alta de 66%
3,8plataformas assinadas em média pelo brasileiro
A linha do tempo

A mesma história em quatro fases

Antes de qualquer número, vale reconstruir a sequência, porque ela já sugere o mecanismo. Nos anos 2000 a pirataria reinava simplesmente porque não havia alternativa legal acessível, e quem quisesse assistir a um filme em casa dependia de Napster, LimeWire ou do DVD da esquina. A partir de 2011 o streaming chegou barato e concentrado, e a pirataria despencou, não por repressão, mas porque a alternativa legal ficou melhor. De 2020 em diante cada estúdio lançou a sua própria plataforma, retirou o conteúdo de onde ele estava e passou a cobrar em separado, e a partir de 2024 os acessos piratas voltaram a subir com força, com a TV Box ocupando o espaço que a Netflix ocupava dez anos antes.

Fonte, MUSO, ANCINE e PwC. A sequência mostra a proposta de valor se invertendo ao longo de duas décadas.
PeríodoO que aconteceO sinal nos dados
2000 a 2010A pirataria reina, sem alternativa legal acessívelNapster, LimeWire e o DVD pirata
2011 a 2019O streaming vence pelo preço e pela conveniênciaNetflix a R$ 19,90 e queda de 57% na pirataria
2020 a 2023Fragmentação e inflação, cada estúdio com a sua plataformaO catálogo se espalha e o custo se multiplica
2024 em dianteA pirataria volta, agora via streaming ilegal216 bilhões de acessos, alta de 66% desde 2020
Share of wallet

De 3% para 22% do salário mínimo

O share of wallet, que é quanto de uma renda vai para um gasto específico, é o dado que conecta tudo o mais nesta análise. Em 2012 a assinatura da Netflix custava R$ 19,90, o equivalente a 3,2% do salário mínimo da época, e aquilo dava acesso à maior parte do que se queria assistir. Hoje a Netflix sozinha continua custando algo perto de 3% do salário, ou seja, ela não é a vilã isolada da história, o que mudou foi que o catálogo deixou de estar num lugar só, por isso reproduzir aquele mesmo nível de acesso exige assinar praticamente tudo, o que chega a R$ 340 por mês, ou 22,4% do salário mínimo.

É importante ser preciso sobre o que essa comparação mede, porque ela contrapõe uma assinatura em 2012 ao conjunto de todas as plataformas em 2025, e não são o mesmo produto. O que ela mede é o custo de manter a proposta de valor original, ter o conteúdo que se quer ver sem precisar caçar em qual serviço ele está, e é justamente essa proposta que se deteriorou. No meio do caminho está o comportamento real, o brasileiro assina em média 3,8 plataformas, o que consome 7,8% do salário mínimo.

0 25% 50% 75% 100% 3,2% 3,0% 7,8% 17% 22,4% Netflix 2012 1 plataforma Netflix 2025 1 plataforma Média BR 3,8 plataformas Todas principais sem anúncios Todas em 4K premium
Streaming Restante do salário mínimo
Custo do streaming como percentual do salário mínimo em cinco cenários de acesso. Fonte, PwC, ANCINE e cálculo próprio sobre os preços de tabela vigentes.
Fonte, PwC Global Entertainment and Media Outlook e IBGE. O brasileiro assina mais plataformas que o americano, com renda muito menor.
IndicadorBrasilEstados Unidos
Plataformas assinadas, média3,82,0
Share of wallet efetivo7,8%cerca de 2,8%
Renda per capita relativa1x5x
O brasileiro assina quase o dobro de plataformas que o americano e compromete proporcionalmente cerca de 2,8 vezes mais da própria renda, e ainda assim não tem acesso a tudo.
A série da pirataria

O preço sobe, a pirataria volta

A série global de acessos a sites piratas da MUSO desenha exatamente a curva que a sequência anterior sugeria. Entre 2017 e 2020, período em que o streaming ainda era barato e concentrado, os acessos caíram 57%, de 300 bilhões para 130 bilhões. A partir dali a curva vira, e entre 2020 e 2024 sobe 66%, chegando a 216 bilhões, com 96% desse consumo acontecendo por streaming ilegal, não mais por download, o que mostra que a pirataria não voltou como era antes, ela voltou imitando o produto que a derrotou.

0 100 Bi 200 Bi 300 Bi 300 280 190 130 132 141 141 216 queda de 57% alta de 66% 2017 2018 2019 2020 2021 2022 2023 2024
Acessos globais a sites piratas, em bilhões, de 2017 a 2024. O ponto verde marca o piso da série e o ponto navy a retomada. Fonte, MUSO.
Um cuidado necessário aqui, o que existe é uma correlação direcional, não uma causalidade demonstrada. Preço e pirataria se movem em sentidos opostos ao longo da série, e o mecanismo econômico por trás disso é plausível e documentado, mas nada nesta análise isola o efeito do preço de tudo o mais que mudou no período.

O tamanho da perda dá a dimensão do que está em jogo, US$ 113 bilhões no mundo segundo a MUSO, e no Brasil R$ 15,5 bilhões por ano em televisão pela conta da ABTA e cerca de R$ 4 bilhões em cinema pelo IPSOS, mesmo com a Polícia Federal tendo derrubado mais de 600 sites em 2023, o que sugere que a repressão sozinha não tem dado conta.

O contraexemplo

A indústria de games já resolveu esse problema

Existe um setor que enfrentou exatamente esse dilema e escolheu o caminho oposto. Entre 2013 e 2018 a Valve, dona da Steam, passou a ajustar os preços ao poder de compra local, colocando os valores brasileiros de 50% a 70% abaixo do dólar, e o resultado foi inequívoco nos três indicadores que importavam.

+2.000%nas vendas na Rússia após a precificação regional
+400%na receita da América Latina no mesmo período
-65%na pirataria nos mercados com preço ajustado

A régua que torna isso concreto é quanto tempo de trabalho um produto custa, e aí a distância aparece inteira. Um jogo de US$ 19,99 equivale a cerca de duas horas de salário mínimo no Reino Unido e três nos Estados Unidos, contra catorze no Brasil quando não há ajuste de preço, o que significa que vender o mesmo produto pelo mesmo valor em dólar não é tratar todo mundo igual, é cobrar muito mais de quem ganha menos. A Valve corrigiu isso e ganhou receita fazendo, e o streaming vem caminhando na direção contrária.

Brasil, sem ajuste
14 horas
Argentina
8 horas
Estados Unidos
3 horas
Reino Unido
2 horas

Horas de trabalho no salário mínimo local necessárias para comprar um jogo de US$ 19,99 sem ajuste de preço regional. Fonte, Valve e cálculo próprio.

O corte de renda

O streaming virou marcador de classe

A PNAD Contínua de 2025 mostra o quanto essa conta separa as pessoas. Os domicílios com streaming têm renda média de R$ 3.072 por pessoa, enquanto os sem streaming ficam em R$ 1.454, uma renda 2,1 vezes menor, e os que assinam já somam 33,4 milhões de domicílios, ou 44,4% dos lares com televisão.

Quando se pergunta a quem não assina por quê, a resposta mais comum é falta de interesse, com 62%, e é preciso dizer isso com honestidade, porque a maior fatia não é sobre preço. Ainda assim, 26% respondem que consideram caro, e outros 10% dizem que a internet já oferece o mesmo conteúdo, que é pirataria chamada por outro nome, ou seja, mais de um terço dos não assinantes está fora por razões econômicas ou por já ter encontrado um substituto gratuito.

Não têm interesse
62%
Consideram caro
26%
A internet já oferece
10%

Motivos declarados por quem não assina nenhuma plataforma de streaming. Fonte, IBGE, PNAD Contínua 2025.

Fonte, IBGE, PNAD Contínua 2025. Renda domiciliar per capita mensal.
DomicíliosRenda per capitaAlcance
Com streamingR$ 3.07233,4 milhões de domicílios, 44,4% dos lares com TV
Sem streamingR$ 1.454renda 2,1 vezes menor que a de quem assina
A leitura

O problema é o preço, e a solução já existe

A pirataria dos anos 2000 perdeu para o streaming porque o streaming era melhor e mais barato, e é difícil olhar para os números de agora sem concluir que ela está voltando pelo motivo simétrico, o produto legal ficou pior, fragmentado em 59 plataformas, e ficou mais caro, saindo de 3% para 22% do salário mínimo para entregar o mesmo que entregava antes.

O que me parece mais relevante nisso tudo é que já existe resposta testada, e ela não veio da repressão, veio da precificação, com a Valve reduzindo pirataria em 65% enquanto multiplicava a própria receita. Quando assistir de forma legal custa 22% do salário mínimo e exige quatro aplicativos com quatro logins, a TV Box de R$ 150 que entrega tudo numa interface só deixa de ser desvio de caráter e passa a ser escolha econômica racional, por isso eu leio esse movimento menos como um problema de honestidade das pessoas e mais como um problema de proposta de valor. É assim que eu vejo.

Metodologia e fontes

Como cheguei a esses números

Foram seis análises, a inflação do preço da Netflix no Brasil entre 2012 e 2025 comparada ao IPCA, o share of wallet em cinco cenários de acesso, a série global de pirataria da MUSO entre 2017 e 2024, o case de precificação regional da Valve entre 2013 e 2018, o gap de renda entre domicílios com e sem streaming pela PNAD Contínua, e a comparação entre Brasil e Estados Unidos. Os percentuais de share of wallet foram calculados sobre o salário mínimo vigente em cada ano e sobre os preços de tabela das plataformas, o que dá consistência entre os dois extremos da série.

Sobre as limitações, e elas são relevantes aqui, a MUSO é uma empresa privada, referência da indústria mas não produção acadêmica, e qualquer medição de pirataria é estimativa por natureza. A relação entre preço e pirataria é uma correlação direcional, não uma causalidade demonstrada, já que nada nesta análise isola o efeito do preço de tudo o mais que mudou no período. E a comparação de 3% para 22% contrapõe uma assinatura em 2012 ao conjunto das plataformas em 2025, ou seja, ela mede o custo de manter a proposta de valor original, e não dois produtos idênticos. As fontes são a MUSO de 2017 a 2024, o PwC Global Entertainment and Media Outlook, a PNAD Contínua do IBGE de 2025, a ANCINE para o número de plataformas ativas, a ABTA e o IPSOS para as perdas no Brasil, e os dados de precificação regional da Valve e da Steam.

MVZ DATA · Deep Dive #07 · Julho 2026 · Análise autoral, dados públicos, reproduzível.

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