Deep Dive #02 · Abril 2026

O Caso Ticketmaster.

Em 15 de abril de 2026, um júri federal em Manhattan considerou a Ticketmaster e a Live Nation um monopólio. Fui atrás dos números para mostrar que isso não é opinião, é o que o dado diz por várias vias diferentes, do índice de concentração ao padrão de crescimento puxado por preço.

US$ 25,2 Bireceita da Live Nation em 2025
7.466HHI no ticketing, 3x o limiar de concentração
86%market share no ticketing primário
US$ 1,72sobrepreço por ingresso, calculado no júri
Análise horizontal

De US$ 1,8 bilhão a US$ 25,2 bilhões em cinco anos

Comecei pela receita anual da Live Nation, ano a ano, com os balanços entregues à SEC. A receita saiu de US$ 11,55 bilhões em 2019 para US$ 25,2 bilhões em 2025, uma taxa composta de 13,9% ao ano, que já é forte para qualquer setor. O detalhe é o buraco de 2020, quando a pandemia derrubou a receita em 84%, para US$ 1,86 bilhão, e a recuperação a partir dali foi ainda mais rápida, com o crescimento pós-Covid, de 2022 a 2025, chegando a 14,7% ao ano.

0 US$ 10 Bi US$ 20 Bi 11,55 1,86 6,27 16,70 22,70 23,16 25,20 2019 2020 2021 2022 2023 2024 2025 COVID
Receita total da Live Nation por ano, em bilhões de dólares. A barra de 2020 marca a queda de 84% pela pandemia. Fonte, Live Nation SEC filings.
Fonte, Live Nation SEC filings, 10-K e 8-K. Receita em bilhões de dólares.
AnoReceita totalConcertsTicketingSponsorship
201911,558,651,540,98
20201,861,500,200,12
20216,274,700,870,42
202216,7014,091,700,91
202322,7018,902,901,10
202423,1619,202,761,20
202525,2020,902,901,40
Análise vertical

Concerts é 83% da receita, mas o ticketing é a máquina de lucro

Quando abro a receita por segmento, a maior parte vem de Concerts, cerca de 83% em 2025, com o Ticketing em torno de 11,5% e o Sponsorship no restante. À primeira vista o Ticketing parece pequeno, mas é aí que mora o lucro, porque a margem operacional do ticketing gira em torno de 38%, contra cerca de 5% em Concerts. Ou seja, a Ticketmaster é a máquina de lucro dentro de uma empresa de receita bruta alta e margem baixa, o que ajuda a entender por que a competição nesse segmento importa tanto.

82,9% 11,5% 5,6% Concerts
Concerts Ticketing Sponsorship
Composição da receita da Live Nation em 2025, por segmento. Fonte, Live Nation SEC filings.
O Ticketing é só 11,5% da receita, mas roda com margem operacional de cerca de 38%, contra cerca de 5% em Concerts, por isso é o motor de lucro do grupo, não o de receita.
Índice de concentração

Não é opinião, é monopólio por qualquer definição do DOJ

O índice Herfindahl-Hirschman, o HHI, é a métrica oficial que o Departamento de Justiça e a FTC usam para medir concentração de mercado, e ele soma os quadrados das participações de cada empresa, o que significa que quanto mais concentrado o mercado, maior o número. O limiar a partir do qual um mercado é classificado como altamente concentrado é 2.500. Rodei o HHI em três cenários de participação, e mesmo na definição mais favorável à Live Nation, um mercado amplo em que ela teria 44%, o índice dá 3.034, já acima do limiar. Na definição do tribunal, com 86% do ticketing dos grandes espaços, o HHI chega a 7.466, três vezes o limiar, e para dar referência, o HHI do Google em buscas fica em torno de 8.100.

0 2.000 4.000 6.000 8.000 Limiar DOJ/FTC: 2.500 3.034 5.586 7.466 Cenário C defesa, 44% Cenário B com esportes, 73% Cenário A tribunal, 86%
Índice HHI por cenário de participação de mercado. A linha tracejada é o limiar de mercado altamente concentrado do DOJ e da FTC, 2.500. Todos os cenários ficam acima dele. Fonte, DOJ v. Live Nation e DOJ/FTC Merger Guidelines 2023.
Fonte, DOJ v. Live Nation, veredito de 15 de abril de 2026, e DOJ/FTC Merger Guidelines 2023.
CenárioShare do líderHHIClassificação DOJ
Limiar DOJ e FTCreferência2.500limiar
Defesa Live Nation, mercado amplo44%3.034altamente concentrado
Com esportes73%5.586altamente concentrado
Tribunal, grandes espaços86%7.466altamente concentrado
Decomposição do crescimento

62,5% do crescimento vem de preço, não de volume

Aqui vale uma nota de método, porque a primeira ideia era correlacionar preço e receita, e eu descartei, já que essa correlação é espúria por construção algébrica, o preço entra dos dois lados da conta, então ela não diria nada. Troquei por uma decomposição de preço e volume, que isola quanto do crescimento vem de cobrar mais e quanto vem de vender mais ingressos. O gross dos cem maiores tours cresceu 60,6% entre 2019 e 2025, e quando separo as fontes, o efeito preço responde por 62,5% desse crescimento, o volume por 27,8% e a interação entre os dois pelo restante. O mercado cresce porque o ingresso fica mais caro, não porque mais gente vai a shows, e o preço médio subiu 1,9 vez mais que a inflação geral dos Estados Unidos no período.

Efeito preço
62,5% do crescimento
Efeito volume
27,8%
Interação
10,5%

Decomposição do crescimento de 60,6% do gross dos cem maiores tours entre 2019 e 2025. Fonte, Pollstar.

Estados Unidos e Reino Unido

No modelo aberto britânico, as taxas caem quase pela metade

Para fechar, comparei o modelo americano com o britânico, e o contraste é a prova mais direta do efeito da concentração. Nos Estados Unidos, contratos de exclusividade de longo prazo fazem com que cada espaço tenha um único ticketer, sem competição, e as taxas ficam em torno de 28% do valor do ingresso. No Reino Unido, os espaços e os promotores podem escolher entre vários ticketers que competem entre si, e essa competição derruba as taxas para cerca de 15%. No fim, o mesmo ingresso de US$ 100 sai por US$ 128 lá e por US$ 115 aqui, uma diferença de cerca de US$ 13 que vem só do modelo de mercado, não do produto.

Fonte, TickPick e Bloomberg Law. Diferença de cerca de US$ 13 por ingresso.
IndicadorEstados Unidos, exclusivoReino Unido, aberto
Taxas médias, sobre o valor de face~28%~15%
Ticketers por espaço12 ou mais
Share do líder86%disperso
Custo total, ingresso de US$ 100US$ 128US$ 115
A leitura

Não é opinião, é fato jurídico

A minha leitura é que, desde 15 de abril de 2026, dizer que a Ticketmaster é monopólio deixou de ser opinião e virou fato jurídico, e o que me interessa como analista é que os números confirmam isso por vias independentes, o índice de concentração dá muito acima do limiar em qualquer definição, o crescimento é puxado por preço e não por mais gente indo a shows, e o diferencial frente a um mercado com competição é gritante.

Quando três métodos diferentes apontam para a mesma conclusão, a leitura fica difícil de contestar, e é justamente essa convergência que dá segurança a uma análise, mais do que qualquer número isolado. É assim que eu vejo.

Metodologia e fontes

Como cheguei a esses números

Foram quatro análises, a análise horizontal e vertical da receita da Live Nation com o breakdown por segmento, o índice Herfindahl-Hirschman calculado em três cenários de participação, a decomposição de preço e volume sobre o gross dos cem maiores tours, e a comparação de taxas entre os Estados Unidos e o Reino Unido. Vale registrar uma escolha de método, a ideia inicial de correlacionar preço e receita foi descartada por ser uma correlação espúria por construção, e substituída pela decomposição, que separa de verdade o efeito de cobrar mais do de vender mais.

Sobre as limitações, as participações de mercado dos cenários mais amplos são estimativas apresentadas no processo, não auditadas, os shares de alguns concorrentes são aproximações, e as taxas de cerca de 28% vêm de uma análise por amostra. As fontes são o Pollstar Year-End Business Analysis de 2019 a 2025, os balanços da Live Nation entregues à SEC nos formulários 10-K e 8-K, o veredito de DOJ v. Live Nation de 15 de abril de 2026, os DOJ e FTC Merger Guidelines de 2023 para os limiares de HHI, além de TickPick e Bloomberg Law para a comparação de taxas.

MVZ DATA · Deep Dive #02 · Abril 2026 · Análise autoral, dados públicos, reproduzível.

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