Deep Dive #06 · Julho 2026

O Caso Bet.

O Brasil regulou um mercado de apostas de R$ 37 bilhões em GGR, com 25 milhões de apostadores, que hoje sustenta boa parte do futebol nacional. Fui aos números oficiais para separar o que o dado sustenta do que virou manchete, do tamanho real do mercado ao custo social, com o cuidado de não confundir receita bruta com dinheiro remetido ao exterior.

R$ 37 BiGGR do mercado regulado em 2025
25,2 Miapostadores no Brasil
R$ 9 Biarrecadação federal ao ano
R$ 1,1 Biem patrocínio máster na Série A
O tamanho do mercado

R$ 240 bilhões ou R$ 37 bilhões? Depende da métrica

O primeiro problema deste debate é que dois números circulam como se medissem a mesma coisa, e não medem. A CNC divulgou R$ 240 bilhões, usando o volume bruto de Pix, ou seja, todo o dinheiro que entra nas plataformas. O Ministério da Fazenda trabalha com R$ 37 bilhões, usando o GGR, que é o gasto efetivo, o quanto o apostador de fato perdeu.

A diferença não é opinião, é metodologia. O volume bruto conta a reciclagem, o apostador ganha R$ 50, aposta de novo, e a mesma nota é contada duas vezes, o que infla o total. Para a pergunta que interessa, quanto o apostador perdeu, o GGR é a métrica correta. Vale dizer, para ser justo dos dois lados, que a conta da Fazenda também é incompleta, porque exclui o mercado ilegal, que ela mesma estima em cerca de 21 mil operadoras não autorizadas.

Fonte, CNC e Ministério da Fazenda. As duas medem coisas diferentes, por isso os valores não são comparáveis diretamente.
CritérioCNCMinistério da Fazenda
Valor divulgadoR$ 240 Bi, 2024R$ 37 Bi, 2025
Métrica usadavolume bruto de PixGGR, o gasto efetivo
O que medetodo o dinheiro que entrao que o apostador perdeu
Limitaçãoconta prêmios recicladosexclui o mercado ilegal
Para onde vai o dinheiro

O que o GGR de R$ 37 bilhões vira, sem os saltos da manchete

Aqui é onde a análise precisa de mais cuidado, porque é fácil dar um salto que o dado não autoriza. Do GGR de R$ 37 bilhões, cerca de R$ 9 bilhões viram arrecadação federal, e os aproximadamente R$ 28 bilhões restantes ficam com as operadoras. Mas é importante ser preciso sobre o que são esses R$ 28 bilhões, é receita bruta, antes dos custos das empresas, marketing, tecnologia e folha, e não é lucro remetido ao exterior. Dizer que esse dinheiro vai para paraísos fiscais seria uma inferência que pula três etapas, da receita bruta ao lucro operacional, do lucro operacional ao lucro líquido, e deste ao dividendo efetivamente remetido, por isso eu não faço essa afirmação.

R$ 9 Bi, 24% R$ 28 Bi, 76% Arrecadação Receita bruta das operadoras
Arrecadação federal Receita bruta das operadoras, antes dos custos
Composição do GGR de R$ 37 bilhões. A parcela das operadoras é receita bruta, antes de marketing, tecnologia e folha, e não corresponde a lucro remetido ao exterior. Fonte, SPA e Receita Federal.
Fonte, SPA, Ministério da Fazenda e Receita Federal.
FluxoValor ao anoO que é
GGRR$ 37 Bireceita das operadoras, o que o apostador perdeu
Arrecadação federalR$ 9 Bivai para o governo brasileiro
Receita bruta das operadorasR$ 28 BiGGR menos arrecadação, antes dos custos das empresas
De quem são as operadoras

A operação é brasileira, os controladores é que ficam no exterior

Uma correção importante de framing, porque a diferença aqui é técnica e não de nuance. A Lei 14.790 exige que toda casa licenciada tenha CNPJ brasileiro, então a operação roda no Brasil, por uma entidade brasileira, a Bet365 opera como HS do Brasil, e o mesmo vale para as demais. O que fica no exterior são os controladores, as matrizes, concentrados em Malta e em Curaçao. Ou seja, é uma questão de propriedade do capital, não de onde a operação acontece, e essas duas coisas não podem ser ditas como se fossem a mesma.

Saber a extensão exata dessa participação estrangeira, no entanto, não é possível hoje, porque o Ministério da Fazenda classificou os dados de participação de capital estrangeiro como sigilosos.

País do controlador, a matriz, das dez maiores casas. Todas operam no Brasil por uma entidade com CNPJ brasileiro, exigência da Lei 14.790. Fonte, SPA.
CasaPaís do controlador
Bet365Malta
BetanoMalta
SportingbetMalta
BetfairMalta
BetwayMalta
SuperbetCuraçao
KTOCuraçao
BlazeCuraçao
BetnacionalCuraçao
H2BetCuraçao
O custo social

O custo social, com a régua temporal correta

O custo social é real, mas ele precisa ser lido com a data certa, porque o cenário regulatório mudou no meio do caminho. Os dados do Banco Central de agosto de 2024 mostravam cinco milhões de beneficiários do Bolsa Família apostando, e cerca de R$ 3 bilhões enviados por eles via Pix em um único mês, com uma mediana de R$ 100 por mês, o equivalente a 15% do benefício médio. É preciso dizer, porém, que esse dado é anterior ao bloqueio do STF de novembro de 2024, que proibiu beneficiários de apostar, então o quadro mudou desde então e o número corrente é desconhecido.

Outros indicadores não dependem desse recorte e seguem válidos, 42% dos apostadores estavam endividados segundo o DataSenado, e houve 217 mil pedidos de autoexclusão em apenas 40 dias segundo a SPA, a maioria citando motivos de saúde mental.

Fonte, Banco Central, DataSenado e SPA. A coluna de período torna explícito o que é anterior à mudança regulatória.
IndicadorValorPeríodo e fonte
Beneficiários do Bolsa Família que apostaram5 Miago/2024, antes do bloqueio do STF
Enviado via Pix por beneficiários em um mêsR$ 3 Biago/2024, antes do bloqueio do STF
Apostadores endividados42%DataSenado, 2024
Pedidos de autoexclusão em 40 dias217 milSPA, dez/2025
O futebol

O futebol brasileiro passou a depender das bets

Onde o efeito é mais visível e menos ambíguo é no futebol. O patrocínio máster na Série A saltou de R$ 496 milhões em 2023 para R$ 1,1 bilhão em 2025, uma alta de 125% em dois anos, e nesse processo os setores tradicionais foram sendo expulsos das camisas. A concentração é grande, o Flamengo sozinho responde por R$ 268 milhões, mais que o dobro do segundo colocado. E o contraste internacional é claro, enquanto Espanha em 2021, Itália em 2019 e Inglaterra a partir de 2026 e 2027 proíbem bets nas camisas, o Brasil caminha na direção oposta.

0 R$ 400 Mi R$ 800 Mi R$ 1,2 Bi R$ 496 Mi R$ 723 Mi R$ 1.117 Mi 2023 2024 2025
Patrocínio máster da Série A, em milhões de reais, alta de 125% em dois anos. Fonte, Jambo e G1.
Flamengo
R$ 268 Mi
Palmeiras
R$ 100 Mi
São Paulo
R$ 78 Mi
Vasco
R$ 70 Mi
Atlético-MG
R$ 60 Mi

Patrocínio máster dos cinco maiores clubes em 2025, em milhões de reais. Fonte, Jambo e G1.

A leitura

O problema não é o Casimiro, é o modelo

Até aqui foram os números, e eu tentei mantê-los o mais próximo possível do que o dado sustenta. O que vem a seguir é diferente, é a minha leitura, e por isso eu a separo de propósito no bloco abaixo, para deixar claro onde termina a análise e começa a opinião.

Posicionamento do analista, não conclusão dos dados

Existe sim um gap regulatório entre a TV aberta e o streaming, mas esse gap existe em quase tudo que envolve tecnologia no Brasil, um país que não regula nem redes sociais depois de quase vinte anos, quem dirá publicidade de bet em streaming.

Por isso, a investigação contra a CazéTV durante a Copa, enquanto Globo e SBT anunciam as mesmas bets nos mesmos jogos, me parece mais uma resposta ao desconforto com quem quebrou o monopólio da transmissão do que um esforço genuíno de proteção ao consumidor.

E o ponto de fundo é esse, o problema não é o Casimiro, é o modelo. Investigar o influenciador sem tocar na estrutura é tratar o sintoma e ignorar a doença. É assim que eu vejo.

Metodologia e fontes

Como cheguei a esses números

Foram cinco análises factuais, o tamanho real do mercado pela disputa entre GGR e volume bruto de Pix, o fluxo do dinheiro do GGR até a arrecadação e a receita das operadoras, a estrutura de propriedade das dez maiores casas, o custo social com a devida marca temporal, e a dependência do futebol brasileiro. O critério que guiou cada dado foi um só, se o executivo mais sênior desse setor lesse cada afirmação, onde ele me pegaria, e o que não resistia a essa pergunta ou ficou de fora ou entrou com ressalva explícita.

Duas separações sustentam a peça. A primeira é entre fato e inferência, dizer que os controladores ficam em Malta e Curaçao é fato, dizer que o dinheiro é remetido a paraísos fiscais seria uma inferência com saltos que o dado não fecha, por isso ela não entra. A segunda é entre dado e opinião, tudo que é leitura minha está no bloco marcado como posicionamento, longe da análise. Sobre as limitações, o GGR exclui o mercado ilegal, estimado em cerca de 21 mil operadoras não autorizadas, e a participação de capital estrangeiro é sigilosa por decisão da Fazenda, o que impede conhecer a estrutura exata de propriedade. As fontes são o Ministério da Fazenda e a SPA, o Banco Central, a Receita Federal, o DataSenado, a CNC, o IBJR e a ANJL, além de Jambo e G1 para os patrocínios, e Conar e Senacon para a parte regulatória.

MVZ DATA · Deep Dive #06 · Julho 2026 · Análise autoral, dados públicos, reproduzível.

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