A Indústria Pet.
O Brasil tem 161 milhões de pets e 39 milhões de crianças até 13 anos, quatro pets para cada criança, e esse dado resume o fenômeno que transformou uma indústria de R$ 51 bilhões em 2019 numa de R$ 75 bilhões em 2024. Fui aos números para entender o que muda agora, com a desaceleração de 2025 e a fusão que criou a AUAU3.
De R$ 51 bilhões em 2019 a R$ 75 bilhões em 2024, e então o freio
Comecei pela série anual de faturamento da ABINPET e do Instituto Pet Brasil. O setor saiu de R$ 50,9 bilhões em 2019 para R$ 75,4 bilhões em 2024, uma taxa composta de 8,2% ao ano, que superou o PIB em todos os anos da série, um crescimento consistente e acima da média da economia.
O que chama atenção é a virada de 2025. A projeção de crescimento cai para 2,4%, o menor patamar desde 2019, e a produção de pet food recuou pela primeira vez na história, com queda de 0,6% em 2024 e projeção de mais 3,9% de queda em 2025. As causas são o dólar alto encarecendo as commodities, a carga tributária pesada e a desaceleração geral do consumo, por isso o crescimento fácil do pós-pandemia parece ter chegado ao fim.
| Ano | Faturamento | Crescimento no ano |
|---|---|---|
| 2019 | R$ 50,9 Bi | base |
| 2020 | R$ 52,0 Bi | +2,2% |
| 2021 | R$ 58,9 Bi | +13,3% |
| 2022 | R$ 61,6 Bi | +4,6% |
| 2023 | R$ 68,7 Bi | +11,6% |
| 2024 | R$ 75,4 Bi | +9,6% |
| 2025E | R$ 77,2 Bi | +2,4% |
Pet food domina, mas a saúde do pet é o que mais cresce
Abrindo o faturamento de 2024 por segmento, o pet food domina com 54,1% de tudo, seguido a distância por venda de animais, produtos e serviços veterinários, cada um em torno de 10%. Mas o retrato estático engana, porque os segmentos que mais crescem não são os maiores, são os de saúde, produtos veterinários avançam 16% ao ano e serviços veterinários quase 15%. Em termos de crescimento, as famílias estão gastando mais com a saúde do pet do que com a comida dele, o que é o sinal mais claro da chamada humanização do pet.
Se é monopólio ou não, depende de qual é o mercado
A fusão entre Petz e Cobasi, que virou a AUAU3 na bolsa, foi aprovada pelo CADE em dezembro de 2025, depois de dezoito meses de análise, com a condição de venda de 26 lojas em São Paulo, porque sem esses remédios o próprio CADE estimou que os preços poderiam subir até 15% nos mercados onde as duas lideram. Calculei o HHI, o índice de concentração usado pelos órgãos de defesa da concorrência, em dois cenários, e o resultado depende inteiramente de como se define o mercado relevante. Se o mercado é todo o varejo pet, com os pet shops de bairro incluídos, o índice mal se move, de 8.105 para 8.145, porque a pulverização dos pequenos dilui o efeito. Mas se o mercado são as superstores especializadas, que é onde Petz e Cobasi de fato competem, o HHI salta de 2.808 para 4.488, cruzando com folga o limiar de mercado altamente concentrado. A Petlove, terceira colocada, alertou que a fusão cria uma empresa trinta vezes maior que ela.
| Definição de mercado | HHI antes | HHI depois | Leitura |
|---|---|---|---|
| Todo o varejo pet | 8.105 | 8.145 | quase não se move |
| Superstores especializadas | 2.808 | 4.488 | salto para altamente concentrado |
Menos filhos, mais pets
O dado mais estrutural de todos não está no faturamento, está na demografia. Entre 2000 e 2022, a população do Brasil cresceu cerca de 20%, de 169,8 milhões para 203,1 milhões de pessoas segundo os Censos do IBGE, enquanto a população de pets mais que dobrou no mesmo período, de 75 milhões para 155 milhões, ou seja, o número de animais cresceu perto de cinco vezes mais rápido que o número de gente. E, ao mesmo tempo, a casa brasileira encolheu, a média de moradores por domicílio caiu de 3,6 em 2000 para 2,79 em 2022, também pelo IBGE, o que dá lastro à leitura de lares menores com mais animais, o fenômeno que costuma ser chamado de humanização do pet.
| Indicador | 2000 | 2010 | 2022 |
|---|---|---|---|
| População do Brasil | 169,8 | 190,8 | 203,1 |
| População pet | 75 | 98 | 155 |
Terceiro maior mercado do mundo, mas gasta pouco por animal
No mapa global, o Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo, com 5,5% de um mercado de US$ 200 bilhões, atrás apenas dos Estados Unidos, que sozinhos concentram quase metade, e da China. O tamanho impressiona, mas o gasto por animal conta outra história, o brasileiro gasta em média R$ 468 por pet ao ano, cerca de cinco vezes menos que o americano. É aí que mora o espaço da próxima fase, porque o gap de premiumização é enorme, e o crescimento que antes vinha de mais pets agora terá que vir de gastar mais e melhor por pet.
Não está em crise, mas o crescimento fácil acabou
A minha leitura pragmática é que a indústria pet brasileira não está em crise, mas perdeu o ritmo e se concentrou. O crescimento fácil do pós-pandemia, aquele que vinha só de mais gente adotando animais, chegou ao fim, e a projeção de 2,4% para 2025 é o recado disso.
A próxima fase será de premiumização, de eficiência e de disputa de margem, num mercado que, pela primeira vez, precisa justificar os seus preços em vez de simplesmente surfar a onda da adoção. É um setor que amadureceu, e amadurecer significa que a régua deixa de ser crescer e passa a ser crescer com rentabilidade. É assim que eu vejo.
Como cheguei a esses números
Foram cinco análises, a análise horizontal do faturamento entre 2019 e 2025, a análise vertical por segmento em 2024, o cálculo do HHI antes e depois da fusão em dois cenários de definição de mercado, o cruzamento demográfico entre pessoas por domicílio e população pet, e o ranking global de participação. Vale registrar uma escolha de rigor, cheguei a considerar uma correlação entre posse de pet e saúde mental, mas descartei porque a literatura acadêmica sobre o tema é inconclusiva, e mantive na análise apenas o que é verificável.
Sobre as limitações, o cálculo do HHI depende da definição de mercado relevante, que é justamente o ponto em disputa, e os números de 2025 são projeções e não valores realizados. As fontes são a ABINPET e o Instituto Pet Brasil nas séries anuais, o IBGE nos Censos de 2000, 2010 e 2022, o Euromonitor para o mercado global, o Ato de Concentração 08700.009264/2024-29 do CADE para a fusão, além de Brazil Journal, Agência Brasil e CVM.
MVZ DATA · Deep Dive #05 · Junho 2026 · Análise autoral, dados públicos, reproduzível.