Deep Dive #03 · Maio 2026

Os Shows de Copacabana.

Madonna em 2024, Lady Gaga em 2025 e Shakira em 2026, três shows gratuitos, três manchetes de milhões de pessoas, quase R$ 2 bilhões de impacto econômico segundo a Prefeitura do Rio. Fui atrás dos dados oficiais e das contestações independentes para separar o que é verificável do que é narrativa.

5,7 Mipúblico oficial dos 3 shows, contestado por 3 fontes
R$ 66,8 MiISS de maio 2025, +23% real, verificável
98%ocupação hoteleira, Gaga 2025, verificável
R$ 40 Miinvestimento público em 3 anos
O comparativo

Os três shows lado a lado, o que é dado e o que é contestado

Comecei montando os três shows na mesma tabela, o número oficial da Riotur ao lado da estimativa independente que cada um recebeu, com a fonte da contestação. A Riotur divulgou 1,6 milhão para a Madonna, 2,1 milhões para a Lady Gaga e 2,0 milhões para a Shakira, e em todos os casos há uma estimativa independente bem menor, o Datafolha calculou no máximo 875 mil para a Madonna, a BBC Verify chegou a cerca de 660 mil para a Gaga, e o Poder360 estimou até 1,04 milhão para a Shakira.

O ponto que interessa não é cravar o número certo, que ninguém tem, porque os shows são gratuitos e não passam por bilheteria, é notar que a prefeitura nunca explicou publicamente como faz a contagem, por isso o número dela fica sem lastro verificável.

0 0,5 Mi 1,0 Mi 1,5 Mi 2,0 Mi 1,6 2,1 2,0 0,88 0,66 1,04 1,8x 3,2x 1,9x Madonna 2024 Lady Gaga 2025 Shakira 2026
Público oficial, Riotur Estimativa independente ratio de inflação
Público oficial da Riotur contra a estimativa independente de cada show, em milhões de pessoas. Fonte, Riotur, Datafolha, BBC Verify e Poder360.
Fonte, Riotur para o número oficial; Datafolha, BBC Verify e Poder360 para as estimativas independentes.
ShowRiotur, oficialEstimativa independenteRatio de inflaçãoFonte da contestação
Madonna 20241,6 Miaté 875 mil1,8xDatafolha
Lady Gaga 20252,1 Mi~660 mil3,2xBBC Verify
Shakira 20262,0 Miaté 1,04 Mi1,9xPoder360
As linhas de público dependem da contagem da Riotur, contestada de forma sistemática por Datafolha, BBC Verify e Poder360. Já o ISS, a ocupação hoteleira e o volume de resíduos são dados fiscais, operacionais ou sindicais, que se verificam sem depender de ninguém contar cabeças numa praia.
A conta que não fecha

Para caber 2 milhões, seria preciso quase toda a Copacabana

A forma mais limpa de testar o número oficial é pela capacidade física do espaço. O Poder360 mediu a área ocupada no show da Shakira em imagens de satélite e da Reuters, chegando a 208 mil metros quadrados, o equivalente a sete quarteirões entre a Rua Paula Freitas e a Avenida Princesa Isabel.

Cruzando essa área com padrões de densidade, a uma taxa alta de cinco pessoas por metro quadrado cabem no máximo 1,04 milhão de pessoas, e a quatro por metro quadrado, que é o padrão realista para um evento aberto com circulação, o teto cai para cerca de 833 mil. Para caber os 2 milhões anunciados a cinco pessoas por metro quadrado seriam necessários cerca de 400 mil metros quadrados, o que é 66% de toda a extensão de Copacabana, que a BBC estima em 610 mil metros quadrados. Nenhum cenário realista de densidade chega perto do número oficial.

0 0,5 Mi 1,0 Mi 1,5 Mi Oficial Riotur: 2,0 Mi 625 mil 833 mil 1,04 Mi 1,46 Mi 3 p/m² 4 p/m² 5 p/m² 7 p/m² confortável evento aberto denso limite CEPD
Capacidade máxima de público para a área medida no show da Shakira, 208.300 m², por densidade de pessoas por metro quadrado. A linha tracejada marca o número oficial da Riotur, 2,0 Mi, acima de todos os cenários. Fonte, Poder360 para a área, densidades de referência do CEPD e da Prefeitura do Rio.
Área de referência, 208.300 m² medidos pelo Poder360 no show da Shakira.
DensidadeReferênciaCapacidade máxima
3 p/m²confortável625 mil
4 p/m²evento aberto833 mil
5 p/m²denso1,04 Mi
7 p/m²limite CEPD1,46 Mi
O dado incontestável

O que não depende de contar cabeças numa praia

Se o público é contestável, o dado fiscal não é, e é aqui que o evento se sustenta. A arrecadação de ISS de maio, que reúne turismo, eventos e transporte, saiu de R$ 54,2 milhões em 2023, um maio sem show, para R$ 66,8 milhões em 2025, no ano da Lady Gaga, um crescimento real de 23,2% já descontada a inflação.

E a ocupação hoteleira, que em maio costuma ser baixa temporada no Rio, saltou de cerca de 55% para 98% segundo o HotéisRio, com as diárias subindo junto. Esses dois números vêm do fisco e do sindicato, não da contagem de ninguém, por isso são a evidência mais dura de que os shows movimentaram a cidade de verdade.

R$ 45 Mi R$ 55 Mi R$ 65 Mi R$ 54,2 R$ 61,8 R$ 66,8 2023 sem show 2024 Madonna 2025 Lady Gaga
Arrecadação de ISS no mês de maio, em milhões de reais, turismo, eventos e transporte. O eixo começa em R$ 45 Mi para destacar a variação. Crescimento real de 23,2% entre 2023 e 2025. Fonte, Observatório Econômico do Rio.
Fonte, Observatório Econômico do Rio para o ISS e HotéisRio para a ocupação. Crescimento real do ISS de 23,2%.
IndicadorMaio 2023, sem showMaio 2025, Lady Gaga
ISS, turismo, eventos e transporteR$ 54,2 MiR$ 66,8 Mi
Ocupação hoteleira~55%98%
Análise de sensibilidade

Mesmo cortando o público pela metade, o evento se paga

Como o impacto econômico oficial é calculado a partir do público, se o público está inflado o impacto também está, na mesma proporção. Então rodei uma análise de sensibilidade sobre a Shakira, perguntando quanto sobraria do impacto de R$ 800 milhões se eu usasse estimativas menores de público. No cenário do Poder360, metade do oficial, o impacto cai para R$ 400 milhões, e no cenário mais conservador, o da BBC, a um terço do oficial, cai para R$ 264 milhões.

O ponto que me chama atenção é que, mesmo nesse piso, o retorno sobre o investimento público ainda é de 18 vezes, e o ISS incremental de um único mês de maio já supera o investimento público acumulado dos três anos. Por isso a discussão não é se o evento se paga, ele se paga em qualquer cenário, a discussão é se os números oficiais de público são honestos.

0 R$ 300 Mi R$ 600 Mi R$ 900 Mi R$ 800 Mi R$ 600 Mi R$ 400 Mi R$ 264 Mi Oficial 100% 75% Poder360 50% BBC 33% ROI 53x ROI 40x ROI 27x ROI 18x
Impacto econômico da Shakira em quatro cenários de público, e o retorno sobre o investimento público de R$ 15 Mi em cada um. Mesmo no cenário mais conservador, o retorno é de 18 vezes. Fonte, SMDE, cenários da MVZ Data.
Shakira. Impacto econômico proporcional ao público, ROI calculado sobre o investimento público no show, R$ 15 Mi. Cenários da MVZ Data sobre dado oficial do SMDE.
Cenário% do público oficialImpacto econômicoROI
Oficial, Riotur100%R$ 800 Mi53x
Intermediário75%R$ 600 Mi40x
Poder36050%R$ 400 Mi27x
BBC Verify33%R$ 264 Mi18x
Um proxy curioso

O lixo recolhido conta a mesma história

Antes de fechar, um proxy que não prova nada sozinho, mas aponta na mesma direção. A Comlurb recolheu 362 toneladas de lixo no show da Shakira, e no Réveillon de Copacabana, que a Riotur estima em 2,4 milhões de pessoas, foram cerca de 700 toneladas. Se a geração de lixo por pessoa for parecida nos dois eventos, o proxy aponta para algo como 1,25 milhão de pessoas na Shakira, o que é 62% do número oficial. É grosseiro, e eu trato como grosseiro, mas é direcional, e cai perto das outras estimativas independentes.

A leitura

A discussão não é se o evento se paga

A minha leitura é que os três shows movimentaram a cidade de verdade, e que o investimento público se paga com folga em qualquer cenário de público que a gente adote. O que não se sustenta é o número de público que vira manchete, que aparece inflado em duas a três vezes quando confrontado com a área física, com a densidade possível e com as estimativas independentes.

São duas coisas diferentes, e misturar as duas é o que produz a narrativa de quase R$ 2 bilhões. O evento é bom, o dado fiscal é sólido, e mesmo assim o número oficial de público merece ser olhado com desconfiança. É assim que eu vejo.

Metodologia e fontes

Como cheguei a esses números

Foram cinco análises, o comparativo entre público oficial e independente com classificação de confiabilidade por fonte, a análise de capacidade física cruzando área ocupada e densidade de pessoas por metro quadrado, a análise horizontal do ISS de maio como dado fiscal verificável, a análise de sensibilidade do impacto econômico em quatro cenários de público, e um proxy alternativo de público a partir dos resíduos recolhidos pela Comlurb.

Sobre as limitações, e elas são muitas aqui, o Datafolha usou densidade máxima de sete pessoas por metro quadrado, a BBC usou critérios britânicos de conforto e o Poder360 usou cinco pessoas por metro quadrado, ou seja, cada contestação parte de um critério, nenhuma tem acesso à bilheteria porque os eventos são gratuitos, o proxy do lixo é grosseiro, e o ISS inclui efeitos que não são atribuíveis apenas aos shows. As fontes são a Prefeitura do Rio, por meio do SMDE e da Riotur, o Observatório Econômico do Rio para o ISS, o HotéisRio para a ocupação, o Datafolha, a BBC Verify e o Poder360 para as contestações de público, a Comlurb para os resíduos, somados a Agência Brasil, InfoMoney, PET Economia da UFF e o Diário Oficial do Município do Rio.

MVZ DATA · Deep Dive #03 · Maio 2026 · Análise autoral, dados públicos, reproduzível.

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